Dobrada à moda do Porto
Fernando Pessoa
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Feijoada Fria (homenagem a Fernando Pessoa)
Lázaro Curvêlo Chaves
Noite dessas, numa birosca virtual,
Serviram-me o amor como feijoada fria.
Argumentei com Jarbas, o mordomo virtual:
“Preferia feijoada quente,
Que a feijoada ( prato brasileiro típico) nunca se come fria.
Ríspido – talvez muito ocupado – retrucou:
“É o que a Casa oferece!”
(engraçado chamar aquela birosca de “Casa”, assim com inicial maiúscula...)
Não sou de me queixar.
Assinei a nota do pindura pra pagar no fim do mês e saí pensativo...
“O que significaria tudo aquilo?”
Não tenho a menor idéia, só sei que foi comigo!
Sei também que, quando moleque,
o dono da bola trocava as regras do futebol
a toda a hora...
E sei também da enorme frustração que sinto hoje...
De tudo isto estou farto de saber,
Só não entendo mesmo uma coisa:
Se eu pedi clara e nitidamente “amor”,
Como é que o Jarbas me trouxe “feijoada fria?”
Não há como digerir uma feijoada rançosa e gelada...
Não sou de me queixar, vós que conheceis o íntimo de minh’alma
Bem o sabeis,
Mas estava fria!
Não dá pra comer feijoada fria.
Não me queixei, vou pagar religiosamente a conta, como sempre faço,
Mas estava fria.
Não é prato que se coma frio, mas veio frio...
Cultura Brasileira
Duplipensar
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